Existem memórias que não se deterioram com o tempo — elas simplesmente se tornam mais ricas em afeto. Com 97 anos, Padre Santo Pelizzer expressa a calma de um homem que testemunhou o surgimento e o desenvolvimento de uma cidade, além de aprender a celebrá-la. Para ele, as festividades do Trabalhador e do Costelão ao Fogo de Chão transcendem eventos; são partes vivas de uma narrativa moldada por fé, comunhão e o calor característico do fogo de chão. Recebeu a equipe do Hoje Express em seu escritório adjunto ao seu lar, onde reside há 38 anos, dentro do Seminário São José Operário.
Ao desembarcar em Cascavel no dia 30 de março de 1958, oriundo de Vacaria, Rio Grande do Sul, e com apenas um ano de sacerdócio, encontrou um cenário bem diferente — quase primitivo. Ele recorda com humor sua chegada: uma carona em um avião da Sadia durante uma chuva intensa, aterrissando em uma pista de terra que hoje é o coração administrativo da cidade. “Achei que o avião havia caído no meio do mato”, diz ele, rindo da leveza com que transforma um susto em memória.
No entanto, foi em 1968 que algo grandioso começou a se formar; não apenas o fogo sob os espetos, mas também um espírito comunitário que ressoaria por gerações. Padre Santo relembra a primeira Festa do Trabalhador como um rito inaugural. Sem grandes estruturas, mas com enorme disposição, a comunidade se mobilizou: visitou fazendeiros e juntou 25 bois — cerca de cinco toneladas de carne — dividindo-os com um serrote para partilha. Temperaram a carne em tinas de madeira (grandes vasilhas rústicas), criando ali mais do que alimento: simbolizavam união.
Na manhã seguinte, mil espetos foram cravados no solo. Não havia cobertura ou garantias — apenas fé e esperança. “Ainda bem que não choveu”, relembra Padre Santo. Essa essência é fundamental para a festa, cujo alicerce repousa na união entre as pessoas.
O “Costelão Coletivo”
Para o sacerdote, o Costelão representa essencialmente um ato coletivo. É uma reunião onde a comida nutre mais do que o corpo físico. “É a comunidade unida, é a valorização do trabalhador e é a partilha”, resume ele tranquilamente, ciente de que algumas verdades dispensam adornos desnecessários.
Entre as recordações marcantes está a buchada — criada para comemorar o aniversário de Dom Armando Círio (☆1916/†2014), figura querida e presença constante nas festividades. “Era um dos pratos favoritos dele. Ele sempre vinha alegre e ‘chuchava’ o pão no vinho”, recorda. Após o falecimento do arcebispo, essa tradição sobreviveu como um prelúdio significativo para a festa principal.
A Mesma Essência
Hoje, ao observar a magnitude que o evento alcançou, Padre Santo não se apega aos números ou títulos. O que realmente importa para ele é perceber que, apesar da expansão, sua essência continua inalterada. Para ele, a festa ainda é um vínculo entre as pessoas, uma celebração do trabalho digno e uma manifestação tangível da fé.
Essa pode ser a verdadeira grandeza do Costelão — não apenas seu tamanho imponente, mas sua habilidade em atravessar gerações sem perder significado. Sob os olhos atentos de Padre Santo, aquela chama inicial — formada pela combinação de madeira, carne e coragem — permanece acesa não apenas no solo do bosque mas também na memória coletiva da cidade.
Antes mesmo do amanhecer no feriado do Dia do Trabalhador (1º de maio), enquanto Cascavel desperta lentamente, já é possível sentir o aroma da lenha queimando anunciando um dos momentos mais icônicos da cidade. Serão 600 costelões preparados sobre as brasas com 17 toneladas de carne bovina numa tradição reconhecida internacionalmente por transformar fé e confraternização em espetáculo.
A partir de 2017, a Festa do Costelão ao Fogo de Chão realizada pelo Seminário São José Operário ostenta o título mundial como maior evento deste tipo reconhecido pelo Guinness Book e chega à sua 29ª edição como símbolo forte da identidade local.
Grandiosidade Impressionante
Neste Dia Internacional do Trabalhador, o Seminário Diocesano São José será novamente sede da 29ª Festa do Costelão ao Fogo de Chão juntamente com a 58ª Festa do Trabalhador. A expectativa é receber aproximadamente 25 mil visitantes — podendo alcançar até 30 mil durante todo o dia. Além do tradicional almoço público, novas acomodações foram implementadas com três mil lugares adicionais e um sistema drive-thru para retirada das costelinhas acessível pela Rua Jorge Lacerda.
Os números revelam-se impressionantes e ajudam a compreender a importância desse evento: são utilizados 1.500 quilos de sal, 900 quilos de batata e mil quilos de mandioca entre outros ingredientes essenciais como alface (900 pés), tomate (460 quilos), cebola (540 quilos) além das mil cucas artesanais nos sabores simples ou abacaxi e goiaba. Também haverá duas mil costelinhas disponíveis para retirada junto aos acompanhamentos tradicionais além do almoço completo servido no espaço.
Solidariedade como Principal Ingrediente
De acordo com Pe. Jean Zanelatto, reitor do Seminário Diocesano São José Operário esta edição reflete um crescimento contínuo da festividade: “Estamos otimistas quanto à expectativa para este ano. O clima será favorável; teremos sol e calor perfeito para celebrar São José”, afirma ele.
A festa vai além da grandiosidade gastronômica e cultural; mantém seu propósito fundamental: solidariedade. Os recursos gerados serão destinados tanto ao Seminário São José Operário quanto à construção e manutenção do Seminário Jesus Bom Pastor (Propedêutico). Neste ano específico, metade dos lucros será direcionada diretamente para essa nova obra.
“O São José é um dos beneficiados pela festa; neste ano metade dos lucros irá ajudar na construção e manutenção deste seminário”, ressalta padre Zanelatto.
A Festa do Trabalhador evoluiu para deixar sua marca não apenas localmente mas atraí visitantes oriundos das mais diversas partes do Brasil e até mesmo internacionais. A dimensão deste evento já ultrapassou fronteiras conforme afirma o reitor:
“A Festa do Trabalhador tornou-se cosmopolita! Cascavel e região abraçaram essa ideia; agora alcançamos níveis internacionais recebendo grupos provenientes do Rio Grande do Sul até Brasília passando por São Paulo e Curitiba assim como visitantes da Colômbia ou Argentina inclusive grupos vindos até mesmo de Portugal no último ano! Muitas pessoas vêm exclusivamente para conhecer este maior costelão ao fogo de chão reconhecido mundialmente”, destaca.
Mais que uma celebração gastronômica tradicional localmente conhecida; o Costelão ao Fogo tornou-se patrimônio emocional da cidade: uma festividade onde fumaça mistura tradição com fé proporcionando encontros onde cada costela assada narra parte da história dessa cidade que aprendeu a transformar trabalho em celebração.
Programação
A programação inicia-se nas primeiras horas da madrugada; às 4h os costelões já começam sua colocação sobre as brasas enquanto às 5h30 os assadores dão início oficial às chamas. Às 8h começa a venda dos pastéis juntamente com o famoso Pão de São José — pão tostado acompanhado por molho especial além da carne bovina desfiada na praça de alimentação.
Pelas 9h acontece uma motociata saindo em frente à Catedral Nossa Senhora Aparecida levando a imagem de São José até o seminário; às 10h será celebrada uma missa na capela presidida pelo arcebispo Dom Mario Scaclon Angonese enquanto às 11h inicia oficialmente o almoço especial dedicado ao Dia dos Trabalhadores seguido por apresentações culturais programadas para acontecerem durante toda tarde no palco principal começando às 14h.
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