Durante o discurso que aborda a questão trabalhista, a proposta parece promissora ao sugerir a diminuição da jornada de trabalho, aumento do tempo de descanso e uma melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores brasileiros. Contudo, medidas como a Proposta de Emenda à Constituição que visa eliminar a escala 6×1 — sem qualquer redução nos salários — têm gerado preocupações significativas no setor produtivo. Para os empresários, especialmente aqueles localizados fora dos grandes centros urbanos, esse debate ignora um princípio econômico fundamental: alguém deve arcar com esses custos.
A PEC que está em discussão no Congresso Nacional sugere a redução da carga horária semanal enquanto mantém os salários inalterados. Segundo as entidades empresariais, isso resultaria em um aumento automático no custo da hora trabalhada. Em um país que ainda enfrenta desafios em produtividade e possui uma alta carga tributária, há receios de que essa mudança traga resultados contrários aos benefícios prometidos.
No Dia do Trabalho, celebrado nesta sexta-feira (1º) globalmente, o Jornal O Paraná convida seus leitores a refletirem sobre o atual cenário sob a perspectiva dos empresários – aqueles que criam as oportunidades de trabalho.
Em Cascavel e na região Oeste do Paraná, onde pequenas e médias empresas são fundamentais para o dinamismo econômico local, o impacto pode ser ainda mais significativo. Marcio Blazius, presidente da ACIC (Associação Comercial e Industrial de Cascavel), alerta que “modificar a escala 6×1 é uma decisão arriscada, pois tende a aumentar os custos operacionais, pressionar a inflação e gerar consequências opostas às esperadas pelos trabalhadores.” Ele menciona que várias entidades empresariais, incluindo Caciopar, Faciap e CACB, estão acompanhando essa discussão com apreensão.
A conta que não fecha
Para aqueles que estão diretamente envolvidos na economia, criando empregos e mantendo suas operações ativas, a lógica é simples: menos horas de trabalho ao mesmo salário resulta em um aumento imediato nos custos por funcionário. Esse custo adicional precisa ser absorvido de alguma forma.
Nos setores de comércio e serviços, onde a escala 6×1 é crucial, adaptar-se à nova realidade não será uma tarefa fácil. Empresas que operam diariamente com equipes reduzidas enfrentarão dificuldades para expandir suas operações sem comprometer sua saúde financeira.
“Não nos opomos a melhorar as condições do trabalhador. No entanto, é essencial compreender que sem empresas saudáveis não há empregos. Se os custos aumentarem além do suportável, simplesmente não haverá viabilidade”, explica um empresário do setor de serviços em Cascavel.
Na prática, isso coloca os empresários diante de uma escolha complicada: contratar mais colaboradores — elevando ainda mais os custos — ou reduzir operações. Muitas vezes, esta última opção acaba sendo a mais prevalente.
Impacto em cadeia
No ramo da construção civil, considerado um dos pilares da economia local, o clima também é preocupante. Estima-se que existam cerca de oito mil empregos diretos e outros oito mil indiretos na região Oeste do Paraná, amplificando assim o impacto de qualquer modificação nas normas trabalhistas.
Agnaldo Mantovani, vice-presidente do Sinduscon Paraná Oeste (Sindicato da Indústria da Construção Civil Oeste do Paraná), comenta: “A diminuição da jornada sem redução salarial resulta em um incremento direto no custo da hora trabalhada e pressiona toda a cadeia produtiva.” Ele acrescenta que esse efeito não se limita apenas às empresas: “O aumento será repassado aos preços finais dos produtos e serviços, afetando diretamente o consumidor.”
Como consequência dos custos elevados, o cotidiano das pessoas também muda: serviços se tornam mais caros, produtos têm seus preços reajustados e o poder de compra diminui.
Pressão sobre preços e consumo
O aumento nos custos sem um correspondente ganho em produtividade pode desencadear um efeito dominó. As empresas tendem a transferir esses incrementos para os consumidores, levando à desaceleração do consumo e à perda de ritmo na atividade econômica.
Esse é um aspecto frequentemente negligenciado nas discussões públicas sobre o tema pelo setor produtivo. “Esse assunto deve ser tratado com cautela técnica e isenção política”, enfatiza Blazius. Ele sugere que as deliberações ocorram longe dos períodos eleitorais para evitar decisões apressadas.
Empresários temem que propostas populares avancem mais pela retórica do que pela viabilidade econômica real.
Emprego sob pressão
Ainda que a proposta seja apresentada como uma melhora nas condições laborais dos trabalhadores, empresários alertam sobre possíveis repercussões negativas. Dentre elas estão a desaceleração na criação de empregos formais e o crescimento da informalidade no mercado.
Diante da incapacidade de suportar custos crescentes, muitas empresas podem optar por reduzir contratações ou adiar investimentos planejados em favor de alternativas menos dispendiosas como automação ou terceirização.
“Um aumento nos custos aliado à queda na produtividade é uma receita para desestimular contratações”, afirma Mantovani. “Sem eficiência aprimorada, fica difícil manter as contas em ordem.”
Entre o discurso e a prática
A defesa pela redução da jornada baseia-se na suposição de que trabalhadores descansados rendem mais. No entanto, empresários questionam se as condições estruturais do Brasil são adequadas para implementar tal mudança agora.
Dificuldades como baixa qualificação profissional da mão-de-obra, altos impostos e problemas logísticos continuam sendo barreiras significativas ao aumento da produtividade.
<pNesse contexto, muitos no setor produtivo acreditam que essa proposta simplifica uma questão complexa e desconsidera as diferenças entre setores econômicos e regiões geográficas.
No cerne desse debate está uma figura pouco reconhecida: o empresário. Ele é quem investe capital próprio, assume riscos financeiros e contrata funcionários para manter sua operação ativa. Para líderes empresariais, o Dia do Trabalho deveria também ser um momento para reconhecer esse importante papel desempenhado por eles na economia.
“É complicado se opor a algo que promete melhorias para os trabalhadores em teoria. Mas é necessário fazer as contas”, conclui um empresário entrevistado pela reportagem.
Equilíbrio ou ruptura
A tarefa consiste em encontrar um equilíbrio entre assegurar direitos trabalhistas e garantir a capacidade das empresas em criar oportunidades de emprego.
Mudanças dessa magnitude exigem planejamento cuidadoso, transições bem estruturadas e diálogo com aqueles envolvidos no dia-a-dia econômico real. Sem esses elementos essenciais, corre-se o risco de transformar uma iniciativa voltada ao avanço social em um fator desencadeador de instabilidade econômica.
Neste 1º de Maio vai além das festividades; expõe um dilema central enfrentado pelo país: como avançar nos direitos trabalhistas sem prejudicar aqueles responsáveis por gerar emprego?
O QUE MUDA COM O FIM DA ESCALA 6×1
- Diminuição da carga horária semanal
- Mantendo os salários atuais
- Aumento no custo por hora trabalhada
- Necessidade maior por contratações ou redução nas operações
- Efeito direto nos setores comercial, serviços e construção civil
O QUE DIZ O SETOR PRODUTIVO
“Modificar a escala 6×1 representa uma decisão arriscada que pode elevar os custos operacionais além do esperado.”
— Marcio Blazius , presidente da ACIC
“Reduzir horas sem diminuir salários aumenta diretamente o custo hora trabalhada e pressiona toda cadeia produtiva.”
— Agnaldo Mantovani , vice-presidente do Sinduscon Paraná Oeste
“Se reduzirmos a jornada mas aumentarmos os custos operacionais terei apenas duas opções: contratar menos ou aumentar meus preços.”
— Empresário do setor de serviços Cascavel
