A negligência se torna fatal e pesa sobre os hospitais

O Maio Amarelo é mais do que uma simples campanha de conscientização, sendo simbolizado pelo slogan e pela cor amarela. Este movimento tem a missão de alertar continuamente sobre uma dura realidade que se repete nas ruas e rodovias: a imprudência no trânsito continua a causar mortes, ferimentos e pressão crescente sobre o sistema público de saúde. Até quando o desrespeito às normas de trânsito transformará os hospitais em extensões das vias públicas?

“Visão”

Em 2023, o lema do Maio Amarelo é “No trânsito, enxergar o outro salva vidas”, enfatizando a importância da atenção e do respeito mútuo como fundamentais para a redução de acidentes. Este é um problema global que tem na falta de consciência um dos seus principais motores. Durante todo o mês, diversas atividades são organizadas em diferentes locais da cidade com um objetivo central: conscientizar todos sobre sua responsabilidade no trânsito. E a questão persiste: por que ainda é tão difícil entender que uma ação imprudente pode devastar famílias e impactar toda a sociedade?

Os acidentes, cada vez mais frequentes e letais, deixam feridos, provocam sequelas permanentes e resultam em mortes precoces. Um aspecto alarmante são os custos das internações, que aumentam anualmente no Paraná, trazendo sérias consequências ao sistema público de saúde. No último ano, a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) do Paraná destinou mais de R$ 23,5 milhões para atender pacientes vítimas de acidentes de trânsito — recursos que poderiam ser aplicados em outras áreas da saúde para reduzir filas e ampliar atendimentos.

Juventude abreviada

<pDados da Sesa indicam que, em 2025, foram registradas 12.697 internações devido a lesões no trânsito. Os homens jovens são as principais vítimas: 76,5% das internações ocorreram com o sexo masculino, concentrando-se especialmente nas faixas etárias entre 20 e 39 anos, representando quase 50% do total. O uso de motocicletas e triciclos foi responsável por 67,5% dessas hospitalizações.

No que diz respeito aos óbitos, o Estado registrou 2.660 mortes em 2025, com 82% delas ocorrendo entre homens. As vítimas fatais mais comuns foram ocupantes de motocicletas e triciclos, contabilizando 904 mortes (34,3%). Em seguida estão os ocupantes de veículos leves (836 mortes; 31,4%) e pedestres (424 mortes; 15,9%). A pesquisa revela que as fatalidades seguem o perfil das internações, atingindo principalmente pessoas entre 20 e 39 anos, faixa etária responsável por 1.065 mortes (40%).

Nova pandemia?

A repercussão dos acidentes também é sentida imediatamente pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Em 2025, foram realizados 67.610 atendimentos relacionados a sinistros de trânsito em todo o Estado. Os dados revelam uma vulnerabilidade clara sobre duas rodas: o acidente mais comum registrado foi a colisão entre automóvel e motocicleta (20.707 chamados), seguido por quedas de moto (11.166) e colisões entre carros (8.295). Assim como nas estatísticas hospitalares, as vítimas são predominantemente jovens, com maior frequência na faixa etária de 21 a 30 anos, que concentrou 15.205 atendimentos pré-hospitalares durante esse período.

A enfermeira responsável pelo Núcleo de Educação Permanente do Consamu em Cascavel, Indiara Teixeira Hartmann, afirma que os acidentes de trânsito se tornaram uma espécie de pandemia, devido ao alto número de ocorrências e seus impactos na saúde pública. “Temos muitas vítimas necessitando hospitalização ou enfrentando sequelas após os acidentes, sem contar os óbitos. Isso afeta diretamente o sistema público de saúde”, enfatizou.

Cada imprudência no trânsito ocupa um leito no hospital

A enfermeira destacou ainda que os acidentes frequentemente resultam na suspensão ou adiamento de cirurgias eletivas enquanto outros pacientes continuam precisando de atendimento para situações como infarto ou AVC. “Paralelamente a isso, temos os sinistros de trânsito, que aumentam a demanda por esses serviços”, explicou.

A profissional acredita que mudanças são possíveis através da conscientização. “As pessoas precisam entender que ao dirigir carros, motos ou veículos elétricos devem ser conscientes sobre seu papel no trânsito. Ao sair de casa é preciso ter em mente que também é necessário voltar para ela. Às vezes um minuto de pressa pode custar toda uma vida”, alertou.

Ainda há uma forte presença da imprudência relacionada a comportamentos evitáveis — tais como excesso de velocidade, consumo excessivo de álcool ao volante, uso do celular enquanto dirige e desrespeito às normas viárias. No HUOP (Hospital Universitário do Oeste do Paraná), cerca de 60% da ocupação dos leitos é impactada pelos acidentes dessa natureza; as vítimas são encaminhadas diretamente pela Central de Leitos ou após atendimento inicial em unidades menores.

Pela perspectiva do diretor-geral do HUOP , Rafael Muniz de Oliveira , muitos desses incidentes poderiam ser prevenidos. “A maioria dos acidentes decorre da imprudência no trânsito , refletindo na ocupação dos leitos com pacientes cuja presença não era necessária nos hospitais. Isso resulta na perda de vagas para outras pessoas que também precisam ser atendidas”, declarou.

No ano passado, o HUOP registrou mais de 1.533 atendimentos via Pronto-Socorro relativos aacidentes no trânsito . Somente em abril deste ano foram mais de 94 vítimas atendidas e apenas na primeira semana deste mês outros 16 indivíduos precisaram receber cuidados especiais. EmCascavel , já ocorreram neste ano 25 óbitos decorrentes desses acidentes — sendo16 no perímetro urbano e nove nas rodovias.

Até quando?

A cobrança por ações efetivas do poder público deve ser acompanhada pela conscientização individual dos cidadãos sobre seus próprios
deveres no trânsito . Respeitar sinalizações , utilizarequipamentos adequados , evitar ultrapassagens perigosas , manter total atenção ao dirigir e agir com empatia são atitudes simples mas essenciais para prevenir tragédias e aliviar a carga sobre os hospitais . Afinal , quantos acidentes ainda serão necessários para que se reconheça que otrânsito é uma responsabilidade coletiva ?

Política de atendimento

A nova legislação aprovada este ano emCascavel visa expandir o suporte às vítimas desse tipo acidente junto às suas famílias . A proposta estabelece umapolítica voltada ao atendimento das vítimas no trânsito , envolvendo diversas instituições comoCotrans (Comitê Intersetorial para Prevenção aos Acidentes), Corpo de Bombeiros ,10ª Regional da Saúde , Secretarias Municipais , OAB , Transitar e Polícia Militar .

A proposta foi apresentada pelo vereadorHudson Moreschi Júnior , que afirmou tratar-se da resposta à crescente violência notrânsito . Ele informou ainda sobre a criação duma comissão para regulamentar essa lei e estruturar uma rede adequada para apoiar as vítimas bem como seus familiares .

Dia da memória

Nesta semana foi aprovada aLei nº15 .404/2026 , alterando oPnatrans (Plano Nacional para Redução das Mortes e Lesões no Trânsito ). A partir deste ano , será celebrado o terceiro domingo d novembro como oDia Nacional em Memória das Vítimas do Trânsito .

A iniciativa tem como objetivo aumentar a conscientização acerca das medidas preventivas necessárias à segurança viária além homenagear as vítimas assim como suas famílias atingidas pelaviolência no trânsito .

A mudança prevê também apoio por parte dos órgãos integrantes do Sistema Nacional d Trânsito nas iniciativas civis relacionadas ao tema fortalecendo ações voltadas à*redução dos acidentes**e à construção d um*trânsito**mais seguro com foco humano .

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