Um periódico, um tesouro do passado e a sutil ação de manter viva a história

Entre as páginas de um periódico e as finas porcelanas, existe um gesto atemporal que simboliza o cuidado. Elis Bissoli de Lucena, ao vender suas antiguidades em Cascavel, frequentemente utiliza folhas do Jornal O Paraná para embalar suas preciosidades. Esse papel serve como uma barreira contra danos, evitando quebras e atenuando impactos, enquanto preserva a fragilidade de objetos que resistiram por décadas. Há um simbolismo profundo nessa prática.

Com cinco décadas de história, o Jornal O Paraná também atua como guardião das memórias.

Enquanto as páginas do jornal protegem preciosidades antigas, ele mesmo se torna um veículo que preserva histórias, eventos e emoções de uma comunidade ao longo do tempo. Em uma era marcada pela rapidez e pelo descarte, tanto Elis quanto o jornal compartilham a mesma missão: garantir que aquilo que é significativo não se perca.

<pAos 35 anos, a acreana encontrou em Cascavel não apenas uma nova cidade, mas um espaço propício para alimentar sua paixão por antiguidades. Formada em psicologia, ela equilibra sua rotina entre atendimentos online e a curadoria de peças antigas, uma atividade que começou quase sem intenção dentro de sua própria residência.

“Minha preferência sempre foi por porcelanas antigas”, revela.

As primeiras peças despertaram a curiosidade das amigas durante encontros descontraídos. Uma xícara aqui, um prato ali, um abajur esquecido no canto da sala. Gradualmente, surgiram perguntas: qual a origem daquela peça? Há quantos anos existe? Quem teria manuseado aquela louça antes?

Sem perceber, Elis transformou seu afeto em curadoria. Atualmente, dedica parte de sua vida à busca por relíquias que têm um valor além do estético; elas guardam memórias. Algumas das peças que encontrou têm mais de seis décadas; outras já completaram cem anos.

“Existem peças da Vaz fabricadas em 1960 que não estão mais no mercado. Quanto mais antiga for a peça, maior é nossa motivação para continuar garimpando”, explica.

Afeto

No entanto, seu trabalho vai além da simples venda de antiguidades. Cada objeto encontrado carrega uma construção emocional única. Existe uma rede invisível de histórias que acompanha cada porcelana. “A gente cria conexões e laços de amizade com os fornecedores”, comenta.

Essas conexões são especialmente fortes nas conversas com pessoas idosas, guardiãs das memórias familiares armazenadas em cristaleiras e salas silenciosas. Elis menciona essas visitas com um carinho tocante.

“Eu tenho um grande amor e paciência para ouvir as histórias das senhorinhas.”

E talvez seja isso que torne seu trabalho tão especial: ela não busca apenas peças raras; ela procura permanências.

No mundo atual, onde tudo parece ser descartável, encontrar uma porcelana que atravessou gerações provoca uma sensação indescritível. Os objetos despertam memórias esquecidas e trazem à tona imagens da infância, proporcionando momentos efêmeros de uma vivência mais lenta.

“Descobrir uma peça com mais de 65 anos toca algo genuíno e afetivo dentro de nós”, ressalta.

Memórias

Para Elis, as antiguidades são portadoras da memória de épocas em que as famílias passavam mais tempo juntas à mesa e os encontros eram menos apressados.

“Elas nos fazem relembrar da infância, quando os pais eram menos apressados e havia tempo para todos se reunirem ao redor da mesa desfrutando bons momentos em família”, reflete.

A fala dela ressoa especialmente agora que o Jornal O Paraná comemora 50 anos. Afinal, um jornal também é um guardião da memória coletiva. Em suas edições estão registradas alegrias, tragédias, mudanças políticas e histórias comuns que ajudaram a moldar a identidade do Oeste do Paraná.

Enquanto as louças mantêm memórias afetivas nas residências, o jornal conserva a memória afetiva da região como um todo.

Tanto Elis quanto o jornal persistem porque possuem significado profundo.

A imagem de Elis envolvendo porcelanas antigas com folhas do jornal possui uma beleza poética: de um lado está a fragilidade dos objetos que sobreviveram ao tempo; do outro lado está um veículo que há cinco décadas documenta a vida em sua essência: frágil, intensa e passageira.

O papel protege as porcelanas.

E o jornal também serve para proteger a sociedade contra o esquecimento.

Experiências

No contexto digital atual, onde informações somem rapidamente nas telas dos celulares, segurar uma peça centenária ainda causa espanto. Abrir um jornal impresso também proporciona uma sensação duradoura. Essas são experiências físicas e táteis.

Elis parece entender isso intuitivamente. Por esse motivo ela se sente atraída por antiquários menos convencionais localizados em ruas discretas ou pequenas cidades. “Muitas vezes são aqueles estabelecimentos mais simples que guardam os maiores tesouros”, afirma.

A frase ressoa além do mundo das antiguidades; fala sobre pessoas e histórias inteiras.

Os verdadeiros tesouros raramente estão na pressa;

  • eles existem nos detalhes;
  • na porcelana herdada da avó;
  • no abajur aceso por décadas na mesma sala;
  • na fotografia esquecida dentro da gaveta;
  • ou nas páginas de um jornal que tem acompanhado a trajetória de milhares de famílias paranaenses por meio século.

Ao se preparar para novas expedições em busca de relíquias tanto no Brasil quanto no exterior, Elis continua reunindo muito mais do que objetos antigos; ela coleciona histórias determinadas a não desaparecerem.

Histórias que continuam encontrando maneiras de permanecer

Pode ser esse o verdadeiro valor das coisas antigas: lembrar-nos de que nem tudo precisa ser trocado para manter sua relevância. Algumas presenças amadurecem com o tempo—como uma porcelana conservada com carinho; como uma fotografia antiga; ou como um jornal que ajuda gerações sucessivas a reconhecer sua própria história.

Serviço

Caso deseje saber mais sobre o trabalho desenvolvido por Elis e conferir as peças disponíveis no Bem Achado, acesse seu Instagram: @bemachado_antiguidades