Se Marty McFly, protagonista do icônico filme “De Volta para o Futuro”, chegasse a uma loja de conveniência em Cascavel, ao perguntar onde estão os cigarros, talvez levasse um tempo para se adaptar ao novo cenário. Junto aos tradicionais maços, ele encontraria uma variedade de dispositivos coloridos e sabores inusitados, quase como se tivesse saído do painel do DeLorean. O cigarro se transformou em formato, aparência e até mesmo em terminologia. A nicotina, no entanto, permanece inalterada.
Essa situação é real. Durante uma visita a uma conveniência em Cascavel, a reportagem avistou um jovem de 16 anos adquirindo um vape. Ao ser questionado sobre a ilegalidade da venda desses produtos e os riscos à saúde que eles representam, o adolescente não parecia preocupado.
“Hoje em dia tudo faz mal, né? Desde alimentos a bebidas industrializadas, e até o cigarro agora é algo moderno”, comentou ele de forma descontraída.
Essa afirmação reflete uma mudança na percepção dos jovens. Para muitos deles, o cigarro eletrônico não possui a mesma conotação negativa do cigarro convencional. Com um design diferente e sabores variados, ele se dissocia da ideia de ser fumante. Contudo, a dependência de nicotina continua escondida sob essa nova fachada.
Os dados obtidos indicam que essa transformação vai além de uma simples mudança de produto.
Enfrentando o vício
Em Cascavel, houve um aumento de 79,6% na busca por tratamento para deixar de fumar entre 2024 e 2025. Conforme informou a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), 1.020 indivíduos procuraram atendimento em 2024; no ano seguinte, esse número subiu para 1.832 pessoas. Em 2026, até julho, já eram 1.359 atendimentos — representando 74,2% do total registrado no ano anterior. Esse serviço está disponível em 46 unidades de saúde na cidade.
No segmento privado também se observa essa demanda crescente. Na Unimed Cascavel, cerca de 100 pessoas participaram do Programa Antitabagismo nos últimos dois anos. O público atendido é equilibrado entre homens e mulheres e concentra-se na faixa etária dos 34 aos 59 anos.
Um antigo vício com nova apresentação
Neste contexto surge outra narrativa: Thiago Machado, com seus 43 anos, fuma desde os 18 e já perdeu a conta das tentativas frustradas de parar. Embora tenha conseguido ficar meses sem nicotina em algumas ocasiões, há cerca de dois anos começou a buscar alternativas ao cigarro tradicional como forma de manter seu hábito sem sentir tanta culpa.
“Atualmente utilizo fumo enrolado na palha, conhecido como paieiro”, relata Thiago.
Esse produto é facilmente encontrado em lojas conveniências e bares. Segundo Thiago, sua justificativa está ligada à memória familiar: “Meus avós fumavam isso e eram saudáveis”, diz ele com um sorriso.
Entre o jovem que vê o vape como um “cigarro moderno” e o adulto que opta pelo paieiro como uma alternativa mais aceitável ao cigarro industrializado existe uma semelhança: ambos buscam formas menos estigmatizadas para consumir nicotina que se encaixem melhor em suas vidas cotidianas.
O alerta médico
Cássio Franco, pneumologista e professor dos cursos de Medicina da Unioeste e da FAG com mais de 25 anos atuando em Cascavel, tem observado essa mudança no consultório. Ele relata que usuários de cigarros eletrônicos têm buscado ajuda para largar o vício; outros chegam por motivos diferentes e só durante as consultas percebem a extensão do seu consumo.
Muitos pacientes não apresentam sintomas relacionados ao uso do produto nem procuram assistência com a intenção clara de parar; assim sendo, as consultas se tornam momentos reveladores sobre sua exposição à nicotina.
O médico destaca a facilidade proporcionada pelo vape: pequeno e discreto, pode ser utilizado mesmo dentro de casa perto da família.
“Eles não têm ideia da quantidade de nicotina que estão inalando”, resume Franco durante sua conversa.
Ele também menciona os sabores disponíveis como um atrativo significativo para os jovens consumidores. Para ele, trata-se não apenas de um novo tipo de cigarro mas sim de uma maneira contemporânea de consumir nicotina junto com outras substâncias potencialmente prejudiciais.
Um público cada vez mais jovem?
As observações do especialista são corroboradas pelos dados das equipes da saúde pública. A Sesau constatou um aumento nas notificações relacionadas ao uso dos cigarros eletrônicos entre adolescentes e jovens adultos, além das preocupações referentes à dependência da nicotina. Entretanto, ainda faltam informações consolidadas que possam mensurar esse crescimento ou determinar quantos pacientes especificamente buscam ajuda para abandonar o vape no município.
Na Unimed também há indícios desse fenômeno crescente entre os jovens consumidores; a operadora informa que muitos usuários de cigarros eletrônicos estão buscando ajuda principalmente na faixa etária dos 18 aos 25 anos, mas enfrentam dificuldades na continuidade do tratamento.
Esse dado evidencia uma distinção importante entre fumantes tradicionais e esses novos usuários: enquanto muitos fumantes buscam tratamento após anos consumindo tabaco e reconhecem sua necessidade urgente de parar, os jovens muitas vezes não se identificam como dependentes da nicotina.
Nesse aspecto reside o paradoxo do futuro do cigarro: quanto mais moderno parece o produto e mais distante fica da figura tradicional do fumante masculino ou feminino, mais complicado se torna reconhecer esta dependência.
Mudanças no mercado ilegal
Enquanto as preferências dos consumidores evoluem, o mercado ilegal também se adapta às novas demandas.
Dados fornecidos pela PRF em Cascavel indicam que as apreensões de cigarros convencionais aumentaram significativamente: passaram de 3 milhões em 2024 para 5 milhões em 2025. Até julho deste ano já haviam sido apreendidos cerca de 575 mil maços.
Em relação aos cigarros eletrônicos houve um aumento igualmente expressivo: as apreensões saltaram de 28 mil unidades em 2024 para mais de 53 mil em 2025; até julho deste ano foram contabilizados aproximadamente 13 mil dispositivos eletrônicos confiscados.
A PRF não calcula os valores envolvidos nas apreensões — tarefa esta atribuição da Receita Federal — mas adverte que menos apreensões não significam necessariamente menos crimes ocorrendo; quando as fiscalizações aumentam, os contrabandistas alteram suas rotas e métodos operacionais com facilidade. O mercado ilícito é capaz de encontrar novas maneiras para continuar suas atividades clandestinas.
As principais rodovias federais como BR-277, BR-369 e BR-163 são utilizadas frequentemente por esses criminosos devido à localização estratégica da cidade que facilita o transporte das cargas menores provenientes principalmente do Mato Grosso do Sul rumo a centros urbanos maiores.
Nas estradas estaduais foram registradas pela PRE um total de 75 ocorrências relacionadas ao contrabando em 2024 resultando na apreensão de mais de 60 mil pacotes; já em 2025 foram recolhidos mais de 21 mil vapes com registro contabilizado por parte das autoridades locais. Em 2026 ocorreram ainda outras trinta e cinco apreensões somando cerca de sete mil pacotes tradicionais e dois mil dispositivos eletrônicos confiscados durante operações policiais.
Parte dessas cargas estava oculta entre outros produtos numa tentativa deliberada para dificultar sua identificação pelas autoridades competentes; rodovias como PRC-467 , PR-180 e BR-277 figuram entre os principais trajetos utilizados pelos contrabandistas nesta estratégia furtiva.
Em relação ao comércio local , a AIFU registrou oito infrações ligadas aos vapes durante o ano passado; ainda foi realizada a campanha “Pod Não Pode!” com orientações oferecidas a aproximadamente duzentos estabelecimentos comerciais dos quais quatro acabaram autuados; houve duas penalizações adicionais registradas em2015 juntamente com uma terceira notificação ocorrida até este ano presente .
A diminuição nas infrações não indica necessariamente uma redução no consumo desses produtos; seja no maço ou no vape , nas estradas ou nas prateleiras , a nicotina continua mudando sua forma , rota , disfarce — mas ainda encontra caminho até os bolsos dos consumidores .
Um dia para refletir sobre mudanças
Instituído em 29 agosto , o Dia Nacional Contra o Fumo visa alertar a população sobre os perigos do tabagismo , promovendo ações voltadas à prevenção bem como cessação desse hábito nocivo .
Quatro décadas depois dessa data emblemática , surgem novos desafios : os cigarros eletrônicos agora coexistem com as versões tradicionais levando assim a dependência da nicotina a novas gerações que muitas vezes sequer se reconhecem como fumantes .
Assim sendo , esta celebração serve não apenas para relembrar as consequências negativas do tabaco mas também reforçar que romper com essa dependência continua sendo viável — buscar auxílio pode ser o primeiro passo nessa jornada .
Retornando ao caminho certo
Existem opções disponíveis para aqueles que desejam abandonar esse estilo nocivo . Na rede municipal , tratativas são realizadas prioritariamente pela Atenção Primária através das quatorze unidades disponíveis na cidade . A Unimed Cascavel informa que sua taxa média chega acima dos sessenta porcento entre participantes ativos ; aproximadamente metade destes indivíduos mantém-se livre do tabaco após um ano inteiro .
Entretanto , esse desafio não termina quando alguém decide parar ; recaídas podem ocorrer junto com dificuldades diversas relacionadas à adesão ao tratamento . Por conta disso , Unimed enfatiza que acompanhamento regular aumenta consideravelmente as chances reais sucesso desta jornada . p >
Além disso , existe ainda uma diferença fundamental entre esses dois personagens apresentados inicialmente : enquanto o adolescente vê seu “cigarro eletrônico” quase como algo inovador feito exclusivamente para novas gerações ; Thiago traz consigo décadas conhecendo todos os dilemas associados ao rompimento dessa dependência ; buscando alternativas menos pesadas carregando consigo menos culpa possível . p >
Entre eles encontramos inteira geração cresceu testemunhando enfraquecimento natural causado pelo tradicional cigarro mas agora descobre novas formas diferentes consumir nicotina disponível atualmente . p >
Assim talvez possamos considerar isso verdadeira viagem “de volta pro futuro”: transformações profundas ocorreram nesse universo tornando difícil distinguir essência real ; porém quando embalagem muda mas dependência persiste desafios continuam exatamente iguais – reconhecer comportamento aditivo procurar ajuda conseguir finalmente livrar-se dele definitivamente . p >
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