
O Brasil registrou mais de 7,6 milhões de autuações por excesso de velocidade somente em janeiro e fevereiro de 2026, segundo dados do Registro Nacional de Infrações de Trânsito (Renainf) e da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). O número representa quase metade das 15,9 milhões de infrações contabilizadas no país no mesmo período e ajuda a dimensionar um comportamento que tem impacto direto sobre a gravidade dos sinistros.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cada aumento de 1% na velocidade média está associado a uma elevação de 4% no risco de sinistro fatal e de 3% no risco de sinistro grave. Para os usuários mais vulneráveis, a diferença pode ser ainda maior: o risco de morte de um pedestre atropelado cresce 4,5 vezes quando a velocidade passa de 50 km/h para 65 km/h.
Os números ganham relevância às vésperas da Semana Nacional do Trânsito, realizada entre 18 e 25 de setembro. Neste ano, a campanha lançada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) tem como tema “O que a pressa não deixa você ver” e chama atenção para como velocidade, distração e outros comportamentos podem comprometer a percepção e a tomada de decisão no trânsito.
O problema não se limita ao velocímetro. Nos dois primeiros meses deste ano, o país também contabilizou 601.349 autuações por uso de celular ao volante e 384.070 por falta do cinto de segurança. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), motoristas que utilizam o celular enquanto dirigem têm cerca de quatro vezes mais chance de se envolver em um sinistro.
“A velocidade e a distração reduzem justamente aquilo que o motorista mais precisa no trânsito: tempo e capacidade para perceber o ambiente, interpretar uma situação de risco e reagir. Quando olhamos para milhões de autuações em apenas dois meses, fica evidente que não estamos falando de comportamentos isolados. O desafio é combinar conscientização, fiscalização e infraestrutura capaz de gerar informações continuamente sobre o que acontece nas vias”, afirma Alexandre Krzyzanovski, diretor de Engenharia e Produtos da Pumatronix.
Tecnologia
Enquanto a campanha deste ano provoca o motorista a refletir sobre aquilo que a pressa pode fazê-lo deixar de perceber, o avanço da tecnologia nas rodovias brasileiras tem ampliado também aquilo que a própria infraestrutura consegue identificar.
Na SP-340, sistemas de inteligência artificial identificaram mais de 18,7 mil infrações em 12 meses, segundo a concessionária Renovias. Foram 14.265 ocorrências relacionadas à falta do cinto de segurança e outras 4.462 ao uso do celular. O caso ilustra como a visão computacional começa a ampliar a capacidade de monitoramento das rodovias.
A Pumatronix, empresa brasileira de tecnologia que integra o Grupo Pumatronix, desenvolve câmeras inteligentes e sistemas de visão computacional voltados à fiscalização, segurança viária e gestão do tráfego. As soluções permitem realizar reconhecimento automático de placas por OCR/LPR, identificação e classificação de veículos e análise do fluxo de tráfego. Com módulos de inteligência artificial, também é possível identificar situações como uso de celular ao volante, ausência do cinto de segurança, avanço de sinal vermelho e conversões proibidas.
“A inteligência artificial permite extrair da imagem informações que antes dependiam muito mais da observação pontual. Uma câmera pode acompanhar continuamente o fluxo e identificar determinadas situações previamente configuradas para análise. Isso não elimina o papel da fiscalização nem transforma a tecnologia em responsável pela decisão final, mas aumenta a capacidade de monitoramento e permite trabalhar com um volume de informação que seria muito difícil acompanhar apenas de forma manual”, explica Alexandre Krzyzanovski.
O avanço desse tipo de tecnologia ocorre em um cenário no qual a segurança viária ainda representa um desafio para o país. O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, base consolidada mais recente, ante 34.881 no ano anterior, uma alta de 6,5%, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pelo ONSV.
Visão do motorista
Além do comportamento de quem dirige, há outra dimensão da percepção nas rodovias: as condições ambientais podem mudar significativamente ao longo de uma mesma via. Chuva intensa, redução de visibilidade, rajadas de vento e alterações no pavimento podem representar riscos que o motorista só percebe quando chega ao trecho afetado.
É nessa frente que atua a Plugfield, empresa do Grupo Pumatronix especializada em monitoramento climático e ambiental. Entre as soluções voltadas às rodovias está a Plugstation, estação meteorológica conectada que permite acompanhar em pontos específicos variáveis como precipitação, temperatura, umidade, pressão atmosférica, velocidade e direção do vento, com transmissão dos dados para monitoramento remoto.
Percepção humana
A combinação entre visão computacional, inteligência artificial e sensoriamento ambiental amplia a quantidade de informações disponíveis para quem administra ruas e rodovias. Enquanto câmeras podem apoiar a identificação de veículos, comportamentos e padrões de circulação, estações e sensores permitem acompanhar as condições encontradas na própria infraestrutura.
“A tecnologia não substitui a atenção do motorista. São papéis diferentes. Quem está ao volante precisa respeitar os limites, evitar distrações e tomar decisões seguras. O papel da infraestrutura inteligente é ampliar a capacidade de monitoramento de quem administra a via, gerando dados que ajudem a identificar comportamentos, padrões e condições que exigem atenção. A Semana Nacional do Trânsito traz justamente uma mensagem sobre percepção, e hoje essa discussão também pode ser feita olhando para a capacidade que as vias têm de produzir informação”, conclui Alexandre Krzyzanovski.
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