Cascavel enfrenta desafios para encerrar drama entre promessas e adiamentos

A pandemia da Covid-19, que provocou uma mudança global em diversas áreas, também deixou marcas profundas no Poder Público, que precisou, à época, se adaptar a uma nova realidade — nem sempre com a agilidade desejada. Com as pessoas em casa e o medo da propagação da doença, os preços dispararam, a mão de obra ficou escassa e muitas obras que estavam em andamento simplesmente estacionaram. Algumas até hoje seguem nesse “modo pausa”, outras avançaram… quando deu.

Em Cascavel, duas grandes heranças (daquelas pouco desejadas) surgiram desde 2020. A primeira foi a obra do tão sonhado asfalto do Lago Azul, finalmente concluída no fim do ano passado. A segunda, bem mais persistente, é a dos abrigos de ônibus, que segue se arrastando e já coleciona temporadas dignas de série longa — com direito a repetecos, promessas e reviravoltas – lembram dos “dramalhões mexicanos”.

Nesta semana, porém, uma nova “luz no fim do túnel” (e todos torcem para que não seja o trem) foi acesa com a abertura de uma licitação, comandada pelo atual secretário multitarefas, Severino Folador, que acumula as secretarias de Serviços e Obras Públicas e de Agricultura.

Folador, que literalmente “bateu na mesa” e prometeu resolver a situação — algo que o público já ouviu em capítulos anteriores — afirmou que, além de concluir os pontos pendentes desde 2020, a intenção é ampliar a rede de abrigos. Afinal, entre sol escaldante e chuva inesperada, o mínimo que o passageiro espera é um abrigo decente.

R$ 27 mil cada um

A nova licitação foi aberta nesta semana e prevê a implantação de 277 pontos de ônibus: 122 novos e outros 155 que deveriam ter sido finalizados ainda no contrato anterior — uma espécie de “reprise obrigatória”.

De acordo com o setor de licitações da Prefeitura de Cascavel, 18 empresas participaram do processo, que tem valor máximo de R$ 7,6 milhões para a construção dos abrigos. Na conta, cada unidade pode chegar a R$ 27,4 mil — quase o dobro dos primeiros modelos, que custavam cerca de R$ 15 mil. O tempo passou, os preços subiram… e a novela segue sem empolgação, pelo menos até agora.

Com estrutura metálica, fundo em vidro, fechamento lateral em alguns modelos, suporte para lixeiras e banco de concreto, os abrigos seguem um padrão já conhecido da população — e, em muitos casos, já desgastado pelo tempo antes mesmo de ser concluído em toda a cidade.
A primeira colocada foi a Comercial Rosa, com proposta de R$ 3,7 milhões para finalizar o serviço, menos da metade do valor máximo. Em segundo lugar ficou a Biosfera, com R$ 5,9 milhões. Ambas são empresas cascavelenses.

Agora, a vencedora precisa apresentar a documentação exigida no edital. Caso não cumpra o prazo, será desclassificada e a próxima assume — um roteiro que, convenhamos, a cidade já aprendeu a acompanhar com certa cautela – preço baixo para vencer licitação é igual aquela histório de “cachorro mordido de cobra, tem medo de linguiça”.

Após a análise técnica das planilhas de engenharia, o processo deve levar pelo menos 15 dias para ser concluído. Só depois virá a assinatura do contrato e a ordem de serviço. Ou seja: os próximos capítulos podem reservar fortes emoções.

Nova tentativa

O antigo contrato dos abrigos começou em 2020, ainda na gestão do ex-prefeito Leonaldo Paranhos, com a meta de instalar 815 estruturas. Mas, como já é de conhecimento público, o desfecho nunca chegou. A novela envolvendo a Construtora Guilherme teve muitos capítulos: o valor inicial de cerca de R$ 13 milhões recebeu aditivos e ultrapassou os R$ 17 milhões — com direito a ajustes de roteiro ao longo do caminho – “tudo por conta da pandemia”.

Foram 16 prorrogações de prazo, sempre acompanhadas de novas promessas de conclusão, chegada de materiais e retomada do ritmo. No fim, o enredo acabou sendo marcado por muito discurso e pouca execução. A empresa alegava falta de insumos, aumento de custos e escassez de mão de obra — justificativas que, embora plausíveis, não foram suficientes para cumprir o cronograma.

Houve ainda dificuldades de instalação em alguns pontos da cidade, inclusive com resistência de moradores que não queriam a parada de ônibus em frente de casa — um conflito urbano que também entrou para a trama.

Após uma relação desgastada e uma queda de braço em que, como de costume, quem saiu perdendo foi a população, o contrato foi encerrado e o processo precisou ser reiniciado do zero.

Ainda há “esperança”

A reportagem do Hoje Express conversou com o secretário Severino Folador, que afirmou que o modelo da nova licitação será o mesmo dos abrigos já instalados — aqueles que, em alguns casos, já envelheceram antes mesmo de ver a “família completa” pela cidade. A proposta é concluir os pontos pendentes e implantar mais 122 novas estruturas em avenidas e vias revitalizadas, como a Avenida Carlos Gomes e a Barão do Cerro Azul, entre outras.

“Temos esperança de que uma boa empresa vença a licitação e consiga terminar a instalação desses abrigos, que são importantes para a cidade, e encerrar essa novela que se arrasta há anos”, afirmou. E neste drama urbano, “esperança”, é personagem fixo e com papel principal nesta história.

Folador explicou ainda que o último prazo vencia em novembro do ano passado, quando o contrato foi cancelado, abrindo caminho para o novo processo. A obra é financiada pela Caixa Econômica Federal, com recursos do FGTS e contrapartida de 5% do Município, incluindo toda a infraestrutura necessária, como base, calçada e rampas de acesso.

“Adote um abrigo”

Nesta semana também foi aprovado em primeira votação na Câmara de Cascavel — e logo depois retirado de pauta após pedido de vistas — um projeto de lei que institui o programa “Adote um Abrigo de Ônibus”. A proposta permitiria que empresas assumissem a manutenção e conservação dos espaços, em troca da divulgação de suas marcas — uma tentativa de dividir responsabilidades diante do histórico já conhecido.

A ideia é melhorar a conservação dos abrigos, frequentemente afetados por pichações, lixo e vandalismo, além de acidentes. O modelo segue a linha do programa “Adote uma Praça”, voltado a espaços de lazer, mas agora com foco na mobilidade urbana — e, quem sabe, na sobrevivência dos abrigos.

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