R$ 20 milhões investidos e as obras continuam: Inauguração feita, mas finalização ainda distante!

Descubra a nova rodoviária de Cascavel, um espaço revitalizado que traz comodidade para 5,8 mil pessoas diariamente – Foto: AEN

A reforma rodoviária de Cascavel, que tem movimentação cerca de 5,8 mil pessoas todos os dias, finalmente foi entregue. E quem chega para conhecer a “Nova Rodoviária” de Cascavel, em obras há dois anos, fica pensativo ao observar os detalhes. Quando se faz uma reforma em casa, por exemplo, a convivência com o pó, barulho, bagunça e dos gastos que parecem não ter fim é inevitável – um roteiro bem conhecido. No entanto, ao fim dos serviços, a sensação costuma ser de um espaço novo, remodelado, bonito e agradável. Nem tudo sai como o planejado, mas fica a impressão de “dever cumprido”.

Apesar da reforma histórica, o telhado não foi contemplado na obra e continua sendo o mesmo dos 40 anos de história da rodoviário – Foto: Secom

Para conhecer e verificar como ficou a obra, entregue oficialmente nesta quinta-feira (9), com toda “pompa que a ocasião merece” e com a presença do governador Ratinho, a reportagem do Hoje Express foi até o local conferir in loco o resultado e ouvir tanto quem trabalha quanto quem passa por lá. A sensação da maioria é a mesma: uma obra ainda inacabada, com muitas salas vazias e guichês apertados.

Apertados porque, quando pensamos em rodoviária, seu principal produto é a venda de passagens, mas as empresas responsáveis por essa comercialização não foram privilegiadas na escolha do espaço. Antes, na parte de baixo do terminal, ficavam em salas maiores e com boa visibilidade para quem chegava. Com a reforma, foram transferidas para a parte superior, em espaços menores, escondidos atrás de pilares que dificultam a visualização tanto do nome da empresa quanto das linhas oferecidas.

A “cereja do bolo” virou ameixa seca, e os passageiros estranham a mudança, já que o que deveria melhorar acabou ficando escondido. No piso superior, uma grande quantidade de salas continua à espera de “investidores”, espaços amplos e cercados por vidro que seriam ideais para empresas. O cisne acabou substituído pelo patinho feio.

Vale destacar que o Governo do Estado fez a sua parte, garantiu os recursos para que o trabalho fosse executado, já a condução da obra é de responsabilidade da Prefeitura de Cascavel, com contrapartida de apenas R$ 200 mil, iniciada ainda na gestão do ex-prefeito Paranhos.

Logística da obra

Em maio de 2025, o Hoje Express esteve na obra e conversou com um dos engenheiros da Construtora Alom, responsável pelos trabalhos, que forneceu informações importantes sobre a logística da reforma. Segundo ele, como o IPC (Instituto de Planejamento de Cascavel), na Gestão Paranhos, optou por reformar o prédio “por andar”, os trabalhos precisaram ser feitos em etapas, o que dificultou o processo, que seria mais ágil se pudesse ser feito de forma integral.

Ele citou como exemplo as salas comerciais. A empresa precisava perfurar a laje das salas do andar inferior, o que só pode ser feito com os espaços desocupados, o que demorou acontecer, atrasando o processo.

Modernização e catracas: O “adeus à despedida”

Inaugurado em 1987, o prédio da Rodoviária, que homenageia a Dra. Helenise Tolentino, ex-primeira-dama de Cascavel, nunca havia passado por uma reforma dessa magnitude. O local recebe cerca de 2 milhões de passageiros por ano e, de acordo com a Prefeitura, a reforma foi projetada para acompanhar o crescimento de Cascavel nas próximas décadas, garantindo funcionalidade, conforto e capacidade operacional.

O espaço recebeu dispositivos modernos, como dois novos elevadores e uma escada rolante na parte central, mas a inversão dos guichês é a principal mudança. Na parte inferior ficaram apenas salas ainda vazias, bancos de espera e a área de embarque e desembarque, onde foram instaladas catracas. A tradicional despedida na porta do ônibus deixará de existir, já que, com a modernização, apenas os passageiros terão acesso à área.

O famoso “pastel de rodoviária” ganhou versão mais moderna, e uma praça de alimentação foi construída no piso superior. No entanto, das diversas salas disponíveis, apenas duas estão ocupadas e oferecem refeições. Uma funcionária de uma lanchonete afirmou que o movimento é bom e acredita que, ao fim da obra – que ainda não está totalmente concluída – o espaço ficará bonito, ao menos “melhor que antes”.

Outro passageiro, que aguardava embarque e soube da inauguração nesta semana, ironizou: “só se trouxerem funcionários da China para terminar em 24 horas”. Ele não passava pelo local há mais de 16 anos e se disse impressionado – mas completou: “não vi muita coisa!”.

Outro grande desafio da rodoviária e a ocupação dos espaços comerciais; apesar da entrega das obras, a maioria dos espaços segue vazio – Foto: Paulo Eduardo – O Paraná

Piso e telhado velhos

O investimento, que ultrapassa R$ 20 milhões, não é tão “claramente reconhecido” por quem chega ao local. Tirando a mudança das salas e os novos equipamentos (elevador e escada rolante), o piso não foi substituído e, em muitos pontos, aparenta estar ainda mais desgastado e sujo – reflexo da longa obra e da movimentação. Além disso, como a própria reportagem já havia apontado, o telhado não foi trocado – porque não foi incluído no projeto da reforma, apenas algumas telhas transparentes.

Como a estrutura do telhado, produzida no tempo do “Ariri Pistola”, possui formato específico, a substituição completa elevaria muito o custo. Por isso, o Município optou por manter o desenho original e trocar apenas parte das telhas, encomendadas no mesmo padrão. Ou seja, a reforma ficou restrita ao “miolo”, e não do chão ao teto. As grandes portas de entrada e os vidros voltados para as plataformas também são os mesmos, agora com marcas da obra que os deixam ainda mais opacos.

A obra continua…

Uma inauguração pressupõe obra pronta nos mínimos detalhes, mas na Rodoviária isso não se confirma. Um dos pontos pendentes é a pintura em boa parte da área interna. Um pintor que presta serviço no local afirmou à reportagem que o trabalho deve levar pelo menos mais um mês para ser concluído, já que recentemente ainda atuava em paredes bastante deterioradas.

Nos cantos da parte inferior ainda há salas cercadas por tapumes e barulho constante de obra. Funcionários relatam que a “barulheira” segue como som ambiente desde o início dos trabalhos. Outro problema é a falta de climatização, tornando o ambiente desconfortável em dias quentes. A fiação antiga, que não foi totalmente substituída, pode ter impedido a implantação de um sistema adequado. Inclusive, quando os novos elevadores começaram a operar, percebeu-se que a potência instalada era inferior à necessária.

Venda de passagens parou para o andar superior e somente passageiros terão acesso à área de emabarque – Foto: Secom

Prefeitura responde

Em contato com a Prefeitura, a informação foi de que o local está pronto e que as paredes foram pintadas, mas, com o uso, alguns pontos já apresentam sujeira, sendo alvo de limpeza e reparos. Sobre os tapumes, disseram que permanecem apenas para manter a organização, garantindo que a obra já está concluída. Durante a entrega da reforma, falando à imprensa, o prefeito Renato Silva, disse que o que ainda falta ser concluído e os problemas que surgirem até a conclusão total da obra serão solucionados: “[…] Vai ser resolvido! Quando eu cheguei aqui (em Cascavel) não tinha nem rodoviária e eu nunca reclamei. Vai ser resolvido e ponto final”.

R$ 20 milhões

A Rodoviária teve sua reforma iniciada em março de 2024 e as obras deveriam ter sido entregues em setembro do ano passado, mas foram adiadas para o fim de março. São cerca de 16 mil metros quadrados de área, com execução da Construtora Alom, vencedora da licitação realizada em janeiro de 2024, com início após 60 dias. O investimento supera R$ 20 milhões, com recursos da Secretaria Estadual das Cidades, a fundo perdido.

O prédio possui dois andares, 32 plataformas de embarque e desembarque e recebe cerca de 11 mil ônibus por mês. O projeto manteve o padrão externo, com mudanças no layout interno, guichês, salas comerciais, terminal de encomendas, sanitários, catracas, acessibilidade, esquadrias, sistema elétrico e estacionamento.

A obra não foi 100% concluída e algumas áreas continuam interditadas – Foto: Paulo Eduardo – O Paraná

Alugar x Terceirizar

Dois processos seguem em andamento na Transitar, responsável pela administração da rodoviária: a terceirização da gestão e a locação das salas comerciais. Um novo regulamento entrou em vigor neste mês, revogando o decreto de junho de 2021 e atualizando as normas de gestão da autarquia. A medida amplia a autonomia do órgão e busca modernizar a administração do espaço.

A terceirização também avança: duas empresas, uma de São Paulo e outra da Bahia, realizaram estudos sobre a estrutura e o funcionamento do terminal. A Transitar avalia os próximos passos, com definição prevista até julho. A nova concessão abrangerá todo o terminal e seu entorno, diferente da anterior, que permitia apenas a exploração da parte inferior.

A futura concessionária poderá explorar serviços como estacionamento, guarda-volumes e sanitários, além da locação de espaços comerciais e taxa de embarque, criando novas fontes de receita.

Desde 2020, a gestão está sob a responsabilidade da Transitar, após o fim do contrato com a antiga concessionária, a Cotema, encerrado no início da pandemia. A administração inclui segurança, zeladoria, manutenção e melhorias estruturais, ou seja, a gestão integral do terminal.

No dia 22 de abril, às 10h, será realizada licitação para exploração de espaços comerciais, por meio do pregão eletrônico 8/2026, na plataforma do Governo Federal. O critério será o de maior lance por item. O valor mínimo estimado é de R$ 7.398.123,74.

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