Obras públicas em Cascavel: entre a promessa e o prazo

A população de Cascavel acompanha de perto as obras públicas, como a Trincheira do Cascavel Velho e a pavimentação do Lago Azul, cobrando transparência e cumprimento de prazos – Foto: Paulo Alexandre/O Paraná

Obra pública costuma começar com discursos, máquinas perfiladas e a promessa de que tudo estará diferente. Para a população, porém, a largada traz uma pergunta menos festiva: será que termina no prazo? Em Cascavel, onde intervenções recentes acumularam atrasos e transtornos, cada novo canteiro chega acompanhado de expectativa, mas também de desconfiança.

O desafio do Poder Público não termina em planejar, orçar e licitar. Depois da ordem de serviço, começa outra corrida: garantir que a empresa cumpra o contrato e que o cronograma não se transforme em uma longa novela. Chuva, redes subterrâneas e ajustes de projeto podem interferir no andamento. Para quem mora ao lado da poeira, porém, nenhuma justificativa diminui o desconforto de ver a obra avançar lentamente — ou, pior, parar.

A cautela dos moradores não nasceu do nada. O asfaltamento das principais ruas do Bairro Lago Azul virou uma novela de mais de cinco anos, com capítulos demais e final adiado. Os novos abrigos do transporte coletivo também entraram para a memória da cidade como estruturas que ficaram pelo caminho. São lembranças que ajudam a explicar o “pé atrás”: quanto maior a obra, o investimento e a cerimônia de lançamento, maior também a vigilância sobre prazo, preço e qualidade.

Trincheira da esperança

A Trincheira do Cascavel Velho é uma das intervenções mais simbólicas dos últimos anos na Capital do Oeste. Reivindicada durante anos, a ligação oferece uma alternativa ao Trevo da Portal, hoje praticamente obrigatório para milhares de moradores da Região Sul que precisam cruzar a BR-277.

O trajeto diário exige paciência e atenção redobrada em um ponto marcado pelo fluxo intenso e pelo histórico de acidentes. É o tipo de travessia em que o motorista respira fundo, olha para os lados — quando olha — e parece pensar: “segura, que eu vou”.

A obra começou em 3 de agosto, mas quem passa pelo local ainda encontra poucas mudanças visíveis. A ausência, em determinados momentos, de máquinas e trabalhadores alimenta dúvidas entre moradores que imaginavam encontrar um canteiro em plena atividade.

Ainda é cedo para falar em atraso, já que sequer houve a primeira medição. Mas o histórico recomenda não esperar o calendário apertar para começar a fazer perguntas.

“Olheiros”

Líder comunitário do Bairro Cascavel Velho, Anderson Imperator é um dos “olheiros” da obra. Para ele, os transtornos durante a execução serão compensados pela melhoria da mobilidade, pelo alívio no Trevo da Portal e pela nova ligação com o Lago Municipal.

“Depois de pronto os moradores terão acesso direto ao Lago Municipal, não precisando fazer uma volta tão grande para chegar ao Lago. Eu creio que durante o período de obra vai ter transtornos sim. Temos uma equipe de lideranças comunitárias do Cascavel Velho, Itália e do Presidente atuante nessa fiscalização e que vão acompanhar a obra até o fim, devido à importância para a comunidade de ter uma fiscalização firme que exige que ela seja executada dentro dos padrões e no tempo determinado para a sua execução”, relatou.

Segundo Anderson, o grupo reúne representantes da sociedade civil organizada e dos poderes Legislativo e Executivo. A intenção é acompanhar o serviço, cobrar transparência e evitar que eventuais problemas sejam percebidos apenas quando o prazo estiver perto do fim.

“É importante, portanto estamos acompanhando”, reiterou.

O projeto prevê um viaduto sobre a BR-277, ligando a Rua Munique à Avenida Waldemar Casagrande, nas proximidades do Lago Municipal, além de alças de acesso e duplicação da rodovia no trecho. A iluminação também será renovada.

A expectativa é beneficiar diretamente mais de 65 mil moradores, com mais segurança para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.

R$ 21,15 milhões

Executada pela Construbes Engenharia, a obra foi contratada pela Prefeitura por R$ 21,15 milhões. O projeto foi elaborado pelo IPC (Instituto de Planejamento de Cascavel) e o prazo de execução é de 18 meses.

É tempo suficiente para mudar a ligação entre duas regiões da cidade — desde que os 18 meses sejam de trabalho e não apenas de esperança.

Fiscalização contra o velho roteiro

O secretário municipal de Serviços e Obras Públicas, Severino Folador, afirma que Trincheira, Olavo Bilac e Lago Azul estão entre as obras mais emblemáticas da cidade.

“A principal é a trincheira, porque depois de pronta trará mais segurança à passagem de todos os moradores da Região Sul. É a trincheira que já estava no papel há vários anos”, disse.

A cobrança não é detalhe burocrático. A população já aprendeu que placa não pavimenta rua, solenidade não instala tubulação e anúncio não substitui entrega.

Fiscalizar desde o início ajuda a impedir que problemas previsíveis ganhem, mais tarde, o conveniente nome de surpresa.

55% pronto

Na Região Central, a obra de drenagem da Rua Olavo Bilac chegou a 55% de execução e, segundo o Município, segue dentro do cronograma. Os trabalhos começaram em abril e têm prazo de oito meses, com conclusão prevista para o fim de dezembro.

O investimento é de R$ 3,7 milhões, com recursos do Fonplata e contrapartida municipal.

A intervenção busca resolver um problema antigo no encontro das águas que descem pela região da Avenida Brasil. A alta vazão provoca acúmulos e aumenta o risco de alagamentos em ruas e imóveis.

“Estamos colocando manilhas bem maiores para conseguir drenar essa água e não acumular na rua ou nas casas”, relatou Folador.

O novo emissário será instalado entre a Rua Minas Gerais e a Avenida Brasil, com intervenções também nas ruas Mato Grosso e Paraná. As equipes trabalham agora na Rua Paraná, entre as ruas Vicente Machado e Olavo Bilac, com pistas interditadas.

É uma obra que aparece — e incomoda. Poeira, bloqueios e acessos prejudicados atingem moradores e comerciantes. O projeto prevê ainda recapeamento e nova sinalização.

O avanço traz algum alívio, mas dezembro se aproxima, e a preocupação dos moradores e usuários diários das vias acompanha os percentuais.

Lago Azul busca o capítulo final

No Lago Azul, a pergunta dos moradores é direta: cadê a empresa?

O lançamento da nova etapa de pavimentação, em 22 de agosto, teve até a presença do governador Ratinho Junior. Depois da solenidade, porém, a movimentação discreta provocou a sensação de que o anúncio havia corrido mais depressa do que a obra — e o receio de uma “reprise” já reapareceu.

A empresa está no bairro, mas ainda na fase de levantamentos. As equipes fazem o mapeamento das ruas e identificam os pontos que exigem adequações antes do início da pavimentação.

A base operacional foi instalada no salão comunitário. O trabalho preliminar envolve redes de água e esgoto e a estrutura de energia elétrica, com necessidade de alinhamento com a Sanepar e a Copel.

O engenheiro responsável afirma que o diagnóstico antecipado é necessário para evitar paralisações depois que as máquinas entrarem nas ruas.

“Analisamos os problemas e vemos como vamos resolver, para que a gente inicie a obra e não tenha que parar no meio dela”, falou.

Explicação técnica

A explicação é técnica, mas, num bairro que esperou mais de cinco anos, o silêncio das máquinas soa alto. O morador não vê mapas ou reuniões; vê a rua como sempre esteve.

Onde já houve demora, falta de informação alimenta a desconfiança.

O projeto elaborado pelo IPC prevê a reurbanização de 17 ruas, com 10,69 quilômetros de pavimentação e 90.391,20 metros quadrados de área pavimentada.

O investimento contratado é de R$ 32,175 milhões: R$ 30 milhões em recursos não reembolsáveis do Tesouro do Estado e R$ 2,175 milhões de contrapartida do Município.

A TEMA Infraestrutura, de Minas Gerais, executará os serviços de pavimentação, terraplenagem, drenagem, urbanização, sinalização e iluminação. O prazo é de até 480 dias.

Antes e durante a pavimentação, será necessário retirar 127 postes e mais de 200 árvores, que deverão ser compensadas com o plantio em dobro.

A Sanepar também trabalha na implantação de 16 mil metros de rede de esgoto. Cerca de 3 mil metros já foram executados, e a conclusão está prevista para junho de 2027. O projeto inclui ainda duas estações elevatórias.

Folador reconhece que o conjunto exige coordenação entre Município, empreiteira e concessionárias.

“Acompanhamos e fiscalizamos e, além de tudo, esperamos receber estas obras dentro do prazo acordado com as empresas”, desabafou Folador.

Olhos atentos e relógio ligado

O receio dos cascavelenses não significa oposição às melhorias. Ao contrário: nasce justamente da urgência de vê-las prontas.

Quem enfrenta o Trevo da Portal quer segurança; quem convive com alagamentos na área central quer drenagem; quem mora no Lago Azul quer finalmente deixar para trás a poeira e o barro.

O problema nunca foi a obra. É a possibilidade de ela começar com data para terminar e acabar sem data para ser entregue.

Por isso, a reta final precisa ser pensada desde a largada. Fiscalização permanente, informação clara e resposta rápida aos imprevistos serão decisivas.

Cascavel já conhece o roteiro em que a inauguração do canteiro é pontual e a conclusão chega atrasada. Desta vez, a população espera uma história diferente — com menos capítulos, nenhum intervalo de anos e final feliz dentro do prazo.

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