Além dos 64: um horizonte de possibilidades se abre

No ano de 1967, os Beatles apresentaram ao mundo a canção “When I’m Sixty-Four”, que refletia sobre como seria atingir os 64 anos. Nesse mesmo período, em Santa Catarina, Beno Welter iniciava sua jornada rumo à maturidade através do trabalho, começando a moldar seu futuro aos 13 anos.

Passadas quase seis décadas, a indagação dos Beatles encontra uma resposta distinta do que se imaginava na década de 1960. Hoje, aos 71 anos, Beno segue ativo no mercado de trabalho, atendendo clientes e se adaptando às novas tecnologias. Recentemente, foi reconhecido como um dos colaboradores exemplares do supermercado onde atua, localizado em Cascavel.

Ao conversar com nossa equipe, ele completava um ano de atuação na rede. Com planos ambiciosos para o futuro, Beno afirma: “Nunca deixei de trabalhar em minha vida”.

O caixa da vida continua aberto

Beno começou sua trajetória profissional aos 13 anos no Oeste de Santa Catarina. Aos 19, já residia em Toledo e havia concluído um curso técnico em Contabilidade. Com passagens pelo Banestado e Banco do Brasil, também empreendeu e trabalhou com sua filha enquanto dividia o palco como músico com duas filhas cantoras. Agora, aos 71 anos, ele se encontra atrás do caixa de um supermercado — e isso o faz feliz.

“O que mais me agrada é interagir com as pessoas”, revela ele.

Para Beno, seu trabalho não é visto como uma etapa final da vida, mas sim como mais um capítulo de uma história que não parece ter fim. Ele planeja continuar na função por pelo menos mais cinco anos, até que sua filha caçula atinja a maioridade. Parar completamente não está nos seus planos.

“Não sou como muitos que se aposentam e ficam em casa”, declara.

Beno não tenta convencer ninguém com suas palavras; apenas narra sua realidade: o trabalho sempre fez parte de sua existência. Essa vivência vai além do individualismo.

Do outro lado do caixa, uma mudança nacional

Estatísticas do IBGE indicam um aumento de 53% na ocupação de pessoas acima dos 60 anos nos últimos dez anos, superando o crescimento registrado entre os jovens. Atualmente, cerca de 8,8 milhões de trabalhadores pertencem a essa faixa etária.

O envelhecimento populacional é um dos fatores que explicam esse fenômeno. No entanto, existe outro elemento: as empresas estão enfrentando dificuldades para preencher vagas disponíveis.

A Apras (Associação Paranaense de Supermercados) aponta uma transformação tanto nas contratações quanto nas ofertas no varejo alimentar no Paraná: enquanto a população envelhece, as organizações têm dificuldade em encontrar mão de obra.

Maurício Bendixen, superintendente da Apras, afirma que quase todas as redes associadas estão com vagas abertas. A escassez de trabalhadores não é apenas um problema operacional; em alguns casos, está limitando o crescimento das empresas.

Nesse contexto, a contratação de profissionais mais velhos tornou-se não só uma questão de inclusão social mas também uma estratégia administrativa eficaz.

“Em tempos de falta de mão de obra qualificada, o talento não tem idade”, resume a Apras ao nosso veículo.

“Cabelos brancos” que ajudam a formar equipes

Dados coletados por uma rede supermercadista em Cascavel — que optou por permanecer anônima — revelam essa transformação no setor. Dos 1.425 funcionários da empresa, 83 têm 60 anos ou mais — representando 5,8% do total. Cinco colaboradores já ultrapassaram os 70 anos e quinze deles estão na companhia há mais de vinte anos; o funcionário mais antigo possui impressionantes 37 anos na empresa.

Um dado interessante é que 42 dos 83 trabalhadores acima dos 60 ingressaram na organização antes dessa faixa etária; ou seja, envelheceram dentro da própria empresa.

As principais funções exercidas por esses profissionais incluem operador de caixa, repositor e auxiliar de estacionamento. De acordo com a empresa, esses colaboradores se destacam pela responsabilidade e baixo índice de faltas.

A troca entre gerações é evidente: os mais experientes compartilham conhecimento e cultura organizacional enquanto os jovens introduzem novas tecnologias e sistemas modernos.

Os veteranos conhecem os atalhos da experiência para lidar com clientes exigentes; por outro lado, os mais novos rapidamente dominam novos softwares e ferramentas digitais recém-adotados.

Assim, no ambiente do supermercado as experiências acumuladas e as inovações tecnológicas coexistem harmoniosamente.

Um diferencial

Na loja onde Beno trabalha, a supervisora Mari observa atentamente essa interação geracional. Ela demonstra orgulho ao destacar os operadores de caixa mais experientes. Frequentemente os clientes elogiam o atendimento cordial proporcionado por esses colaboradores.

Mari nota que os profissionais mais velhos são responsáveis e informam quando precisam se ausentar. Essa dinâmica gera um intercâmbio positivo: sabedoria prática se une à familiaridade com novas tecnologias.

Não se trata de uma rivalidade entre passado e futuro; é uma colaboração mútua. Essa convivência entre diferentes idades está se consolidando como uma nova realidade no mercado laboral.

A fila também chegou à Agência do Trabalhador

Em Cascavel, mudanças semelhantes são observadas nos atendimentos da Agência do Trabalhador. A Secretaria Estadual do Trabalho informou que foram encaminhadas 701 pessoas acima dos 60 anos para oportunidades em 2024; em 2025 houve outros 690 encaminhamentos; até agosto deste ano já são 461 encaminhamentos registrados.

Embora este ano não permita comparações diretas com dados anteriores devido à diferença temporal envolvida, representa cerca de dois terços do total alcançado em todo o ano passado.

Entre as mulheres acima dos 60 anos predominam demandas por posições em serviços domésticos e supermercados; já entre os homens há destaque para vagas nas áreas de logística e estoque.

A Agência percebe um aumento na receptividade das empresas para contratar profissionais maduros devido à elevada rotatividade e à dificuldade em preencher vagas disponíveis. Em diversas funções específicas começa-se a considerar a idade sob outra perspectiva: experiência e comprometimento tornam-se fatores decisivos nas seleções.

Entretanto, é importante ressaltar que muitos buscam emprego principalmente por questões financeiras — seja para complementar aposentadorias ou porque desejam continuar ativos no mercado. Há também quem como Beno simplesmente não consegue imaginar sua vida sem estar engajado profissionalmente.

Entre o querer e o precisar

Viver por mais tempo pode ser considerado uma conquista significativa; porém isso implica também financiar esses novos anos adicionais. Para aqueles que chegam à aposentadoria sem renda suficiente para sustentar esse período prolongado pode ocorrer uma inversão: trabalhar deixa de ser apenas um desejo e passa a ser essencial.

O aumento da presença no mercado laboral entre pessoas acima dos 60 levanta questões complexas: será que aqueles que continuam trabalhando após essa idade estão fazendo isso por escolha ou necessidade financeira?

As respostas variam amplamente; existem aposentados desejosos por viajar ou cuidar dos netos ao passo que outros buscam reingressar no mercado ou iniciar novos empreendimentos devido à pressão econômica atual. Além disso há aqueles que permanecem empregados há décadas simplesmente porque gostam do que fazem ou precisam complementar suas rendas insuficientes.
Todos compartilham a faixa etária superior aos 60 anos; entretanto suas vivências são únicas quando se trata da velhice.

Neste espaço entre escolha pessoal e necessidade financeira reside a importância da longevidade financeira: o foco deve estar não apenas em viver mais tempo mas também em fazê-lo com dignidade.

Mudança social

As transformações vão além do mercado laboral; a sociedade está repensando sua percepção sobre o envelhecimento.

Em entrevista à Revista Ampla da Unimed Paraná,o geriatra Caio Henrique Yoshikatsu Ueda destaca que envelhecer é um processo dinâmico contínuo onde saúde envolve qualidade vida juntamente à preservação das capacidades funcionais.

Esse entendimento ajuda a explicar porque algumas pessoas aos 71 anos permanecem ativas no trabalho enquanto outras preferem levar um ritmo mais calmo.

Idade é apenas um número — não define nosso destino.

Aos 72 anos: Olga considera seu trabalho fonte vital

Olga Bongiovani, aos seus vibrantes 72 anos é sinônimo de energia positiva e bom humor constante.A apresentadora acumula impressionantes52 anos dedicados à profissão,diante das câmeras.Seu programa vai ao ar diariamente,de segunda-feira a sábado,nas telas da Catve.

Natural da cidade capinzalense (SC), Olga iniciou suas atividades profissionais aos20anos sem nunca interromper esse ciclo.E quanto à idade? Ela declara sem hesitar:

“Com muito orgulho tenho74anos,e tenho52de profissão”.

Para ela,a conexão entre trabalho e qualidade vida é inegável.


“Minha rotina é tranquila,satisfatória,normal.Pois entendo que trabalhar significa saúde.Eu adoro conhecer novas pessoas todos os dias,e aprender constantemente com meus entrevistados.”Ela diz.“Isso representa viver bem.”


Quando questionada sobre se considera parte da terceira idade,a resposta dela vem rápida:


“De forma alguma! Minha mente não acompanha meus73anos,e sei que ainda tenho muito pela frente.”


Aposentadoria? Isso definitivamente não faz parte dos seus planos.


“Já me perguntaram quando irei me aposentar.Nunca! Quando deixar este mundo,Acredito que continuarei trabalhando noutro lugar.” Ela brinca.


Olga aprecia momentos tranquilos fora do trabalho,hábitos saudáveis como ler,navegar pelas notícias atuais,e preparar entrevistas.Neste contexto,o exercício profissional renova suas energias diariamente,mantendo-a ativa.

Felicidade produz saúde

Para Olga,a insatisfação pode levar ao adoecimento.

“Muitas pessoas trabalham,só pra pagar contas.E eu entendo bem isso porque elas falam comigo.”

E completa:

“Se você está infeliz,o dia parece arrastado.Tudo muda quando você encontra felicidade naquilo que faz.”

Ela assegura ainda,não utilizar medicamentos,e acordar sem desconfortos.Mantém-se saudável graças ao entusiasmo pelas experiências novas,encontradas na profissão.

“A felicidade traz saúde.”

Cadeira…e agora?

Durante muito tempo,a cultura popular retratou a velhice como algo fixo:uma cadeira balançante,cercada por netos,enquanto histórias eram contadas diante da TV.

Não há problemas com essa imagem.Só não podemos vê-la como único possível destino.

Beno prefere estar ativo atrás do caixa—sem reclamações!

Há exatamenteum ano,juntou-seà rede supermercadista recebendo uma oportunidade única.Dozes meses depois,já brilha entre os colaboradores destaque dentro da empresa.

Esse reconhecimento fala muito sobre o Brasil contemporâneo.Por trás dessa imagem está um homem uniformizado trabalhando,reconhecido pela equipe,sustentando metas futuras claras.

Mais importante do que retratar atividade senil é mostrar gerações descobrindo formas diferentesde envelhecer.

Talvez seja hora dos Beatles atualizarem sua canção.Lançadaem67,no álbum Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band , “When I’m Sixty-Four” idealizava envelhecer após completar64anos.Hoje,milhõesde brasileiros já ultrapassaram essa fasee seguemtraçando planos futuros.

Beno já passou tanto pelos64 quanto pelos70.Analisandoo amanhã,pensa nos próximos cincoanos.Apos isso,pode reduzir ritmos…mas parar?Aindanão!

Aos71anos,não espera passivamente pelo futuro.Enfrenta cada dia trabalhando para encontrá-lo pelo caminho.

Ao contrário daquela visão tradicional sobre aposentadoria,tanto chegar aos64 quanto aos70ou80não implica necessariamente fechar portas.

Muitas vezes,trata-se apenasde mudarde posição—continuandoa construir futuros promissores.