As declarações feitas pelo presidente Lula (PT) a respeito do Banco Master intensificaram o debate político em torno de um dos escândalos mais delicados que estão sendo investigados no Brasil. Em uma entrevista realizada ontem (8), o líder do PT fez críticas contundentes, apontou responsabilidades ao governo anterior e também ofereceu orientações diretas ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, além de defender uma revisão nas posturas da mais alta instância judiciária do país.
Lula voltou a atribuir as supostas irregularidades à administração do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), argumentando que o crescimento do Banco Master foi impulsionado por decisões tomadas durante aquele governo. Ele citou de forma incisiva o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, como uma figura central nesse processo, desafiando as afirmações do atual presidente do BC, Gabriel Galípolo. “O Roberto Campos legalizou o Banco Master e todas as falcatruas que vêm na árvore genealógica do banco têm o governo Bolsonaro”, declarou. Ele ainda acrescentou: “Há uma tentativa de esconder a verdade, a serpente que pôs o ovo”.
Mudanças na corte
Durante suas críticas e reflexões, Lula propôs alterações significativas no funcionamento da Suprema Corte, incluindo uma reavaliação dos critérios para a seleção e atuação dos ministros. Para ele, é essencial que quem ocupa tal posição tenha um elevado compromisso ético. “Quando alguém vai para a Suprema Corte, ele tem que ter um compromisso quase religioso”, disse.
<pUm dos pontos mais enfáticos abordados por Lula foi a relação entre cargos públicos e enriquecimento pessoal. Ele criticou veementemente a possibilidade de autoridades acumularem riqueza enquanto exercem suas funções. “Ele não está lá para ganhar dinheiro. Se alguém quer ficar milionário, não pode ser ministro”, afirmou.
O presidente se estendeu ao discutir outros cargos políticos. “O salário de deputados, governadores e presidentes não permite que ninguém se torne rico. Se alguém enriquecer durante o mandato, é porque teve outras fontes para isso”, observou. E concluiu com um aviso claro: “Se você deseja ser presidente para enriquecer, não venha, a menos que esteja disposto a roubar”.
Essas declarações ocorrem em meio ao andamento das investigações sobre o Banco Master, que investigam movimentações financeiras bilionárias e possíveis ligações com agentes públicos. O caso continua sob análise dos órgãos competentes e pode trazer novos desdobramentos jurídicos e políticos, especialmente em um cenário pré-eleitoral.
Conselho para Moraes
Outro aspecto relevante abordado na entrevista foi o impacto das investigações sobre a percepção pública em relação ao STF, especialmente após a revelação de que a esposa do ministro Alexandre de Moraes atuou em defesa do Banco Master. Lula destacou que essa situação demanda uma resposta clara à sociedade e relatou ter dado conselhos diretos ao magistrado.
“O companheiro Alexandre de Moraes sabe que isso prejudica sua imagem. Você pode ter algo legal, mas nas circunstâncias atuais, as pessoas percebem como imoral”, comentou. Em seguida, compartilhou detalhes da conversa: “Você [Alexandre de Moraes] construiu uma biografia histórica com o julgamento do 8 de Janeiro; não permita que esse caso apague sua história”.
Lula sugeriu ainda que Moraes considere um afastamento formal em julgamentos ligados ao caso. “Sua mulher está advogando? Declare abertamente que sua mulher está advogando: ‘eu prometo que aqui na Suprema Corte estarei impedido de votar’”, enfatizou, sublinhando a importância de transmitir “firmeza” à população.
Galípolo contradiz Lula e isenta Campos Neto no caso Master
No mesmo dia (8), Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, afirmou durante depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado que não há evidências que comprovem qualquer responsabilidade por parte de Roberto Campos Neto no contexto do Banco Master, contrariando as alegações feitas por Lula.
Ao ser questionado sobre possível omissão ou culpa de Campos Neto, Galípolo foi claro: “Não existe nada nas auditorias ou sindicâncias que indique culpa por parte do ex-presidente”. De acordo com ele, as conclusões foram baseadas unicamente nos registros das investigações internas.
Galípolo também mencionou uma reunião ocorrida em 2024 no Palácio do Planalto com o empresário Daniel Vorcaro e Lula. Segundo ele, foram discutidas demandas apresentadas pelo banqueiro, que denunciava perseguições no mercado — uma alegação considerada infundada pela autoridade monetária.
Ainda segundo Galípolo, ele recebeu instruções para agir com autonomia e rigor técnico na supervisão deste caso. As investigações sobre o Banco Master visam desvendar um rombo bilionário e possíveis relações com agentes públicos.
