Correria, Tecnologia e Irresponsabilidade: O trio que transforma o trânsito de Cascavel em um cenário caótico.

O que está acontecendo em Cascavel? “Mais uma morte?”. Perguntas como essas passaram a fazer parte das conversas dos cascavelenses nas últimas semanas diante da disparada de mortes no trânsito, uma sequência de tragédias que parece não dar sinais de desaceleração. O chamado “alerta vermelho” ficou ainda mais intenso após a morte de dois motociclistas logo no início da semana, ampliando a preocupação das autoridades diante de perdas que deixam marcas profundas nas famílias.

A pressa do dia a dia, a falta de atenção e o excesso de velocidade continuam entre as principais causas dos acidentes. São histórias interrompidas de pessoas que saem de casa para trabalhar, estudar ou cumprir compromissos rotineiros, mas que muitas vezes não retornam. Mães, pais, irmãos, esposas e esposos expostos a um trânsito cada vez mais acelerado, marcado por hábitos perigosos da vida moderna — como atender ao celular enquanto dirige ou atravessa a rua, avançar cruzamentos sem a devida cautela e acelerar além do necessário.

O que aconteceu?

Na terça-feira, dia 10 de março, a vítima foi um motociclista de 23 anos que trafegava pela Rua Espinélio, no Bairro Esmeralda. Por motivos ainda não explicados e que ainda serão investigados, ele acabou saindo da pista e batendo em um poste. Socorristas e o médico do Siate foram acionados, mas apenas puderam constatar a morte do jovem no local.

Menos de 24 horas antes, na segunda-feira, dia 9, outra tragédia havia sido registrada. Uma mulher de 49 anos morreu após uma forte colisão no cruzamento da Rua Machado de Assis com a Rua Pedro Ivo. A motocicleta em que ela estava trafegava pela via preferencial quando um Toyota Corolla Cross atravessou o cruzamento.

Na moto também estava um jovem de 19 anos, filho da vítima, que ficou ferido. A mãe morreu ainda no local, em um episódio marcado pela dor e pela interrupção brutal de uma história familiar.

Metade das mortes

Desde o início de janeiro até os primeiros dias de março, Cascavel já registra metade das mortes ocorridas em todo o ano passado no perímetro urbano. Em 2025, a cidade fechou com 16 óbitos no trânsito urbano. Com as duas mortes registradas nesta semana, o número já chegou a oito vítimas em 2026.

O dado acende o alerta das autoridades, que classificam a situação como alarmante e motivo de grande preocupação. A reportagem do Hoje Express conversou com a presidente do Cotrans (Comitê Intersetorial de Prevenção e Controle de Acidente de Trânsito) e educadora de trânsito, Luciane de Moura. Segundo ela, apesar de 2025 ter fechado com indicadores positivos, o início deste ano já causa apreensão.

“Estamos reunindo engenharia, educação e fiscalização para trabalhar em conjunto e tentar encontrar soluções. Muitas vezes fazemos intervenções em determinados pontos e, de repente, acontece um sinistro em um lugar que nem imaginávamos”, relatou.

Motociclistas

Para Luciane, os acidentes com vítimas fatais são o foco principal. Até agora, três das oito mortes registradas em 2026 envolvem motociclistas. Segundo ela, esse grupo é naturalmente mais vulnerável. “O motociclista não tem uma estrutura de proteção. A proteção dele é basicamente o capacete. Ainda estamos analisando os óbitos, mas já percebemos situações em que o capacete é arremessado. Isso indica que muitas pessoas não estão prestando atenção nem nos itens básicos de segurança”, explicou.

A educadora também lamentou casos como o da mulher de 49 anos, que trafegava corretamente pela preferencial, mas mesmo assim acabou sendo atingida. “É o que sempre reforçamos: as pessoas precisam ter atenção à sinalização e às regras de trânsito. As placas estão ali, a preferencial está indicada. Estamos trabalhando para pensar em formas de estancar essa situação”, reforçou.

Em 2024, foram registradas 12 mortes de motociclistas. Já em 2025, o número foi de 10 óbitos envolvendo motos. Os atropelamentos também apresentaram queda: oito mortes em 2024 contra duas em 2025.

Rodovias

Considerando também as rodovias que cortam o município, o número de mortes chega a 16 neste início de ano — oito na área urbana e oito nas estradas. No mesmo período do ano passado eram cinco vítimas ao todo, sendo duas na cidade e três nas rodovias.

O aumento chama atenção, especialmente diante do crescimento da frota municipal, que já alcança 290.234 veículos.

Os cruzamentos mais perigosos

Nesta semana, a Transitar e o Cotrans também divulgaram o raio-x do trânsito de Cascavel referente ao ano passado, com dados sobre mortes, acidentes, feridos e os cruzamentos com maior número de ocorrências.

Um dos pontos que mais chama atenção é que grande parte dos acidentes ocorre justamente em cruzamentos com semáforos, o que reforça a avaliação de que o principal problema é comportamental.

Durante todo o ano de 2025, Cascavel registrou 5.829 sinistros de trânsito, com 1.129 vítimas e 16 mortes no perímetro urbano — sendo três mulheres e 13 homens. Somando os registros das rodovias, o total chegou a 47 mortes: 16 na cidade e 31 nas estradas.

De acordo com Luciane de Moura, o levantamento é feito anualmente e utiliza como referência um índice calculado a cada 100 mil habitantes. “O ano passado teve o menor índice da última década. Isso nos deixou um pouco mais aliviados. Claro que nossa meta é zero — que ninguém morra ou se machuque no trânsito — mas o resultado foi considerado positivo”, explicou.

Segundo ela, o ano de 2025 foi marcado por uma queda nos números gerais, mesmo com muitos acidentes graves nos cruzamentos. “Trabalhamos e sempre é a mesma causa: velocidade, álcool, a questão da CNH, avanço de semáforo preferencial, ou seja, a gente ainda precisa estar sempre trabalhando, batendo na mesma tecla, porque não muda o comportamento”, reforçou. Ela acrescenta que alguns cruzamentos já aparecem tradicionalmente nos rankings de acidentes, mesmo possuindo sinalização completa — horizontal, vertical, semáforos ou rotatórias.

Os “top 3”

O levantamento apontou dois cruzamentos como os mais problemáticos da cidade, ambos com 17 acidentes registrados no último ano: Rua Presidente Kennedy com Rua Marechal Cândido Rondon e Rua Olindo Periolo com Avenida Rocha Pombo.

No primeiro caso, há semáforo, mas a maioria das ocorrências está relacionada à desatenção dos condutores. “Hoje as pessoas se distraem muito com o celular, com outras atividades dentro do carro ou simplesmente estão com pressa. Muitas vezes avançam o semáforo tentando ganhar tempo e acabam provocando um sinistro”, avaliou.

Já no cruzamento da Olindo Periolo com a Rocha Pombo, o problema ocorre em uma rotatória ampla e bem sinalizada. “Existe sinalização específica indicando como trafegar na rotatória. Ou seja, não é